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    30 May

    Vitória Régia

    Vitória Régia

    Emília Lopes 

    “Assim nasceu uma planta cujas

    flores perfumadas e brancas só abrem

    à noite e ao nascer do sol ficam rosadas”.

     

    Muito cedo, antes de ir para o trabalho, cumpre o ritual mecânico. Ainda com a noite escura onde a pouco estava em seu ninho de amor, se despe de seus sonhos e, mesmo querendo sonhar, prepara a comida das filhas, a marmita do marido, engole um café preto e depois de beijar a todos, corre para a parada e enfrenta o ônibus superlotado. No percurso o dia começa a clarear, mas não lhe é permitido ver o nascer do sol, pois o número de passageiros lhe tapa a visão. Se ao menos tivesse um banco para sentar, mas é impossível, porque sua parada fica no meio do caminho e a condução já chega lotada. A cada parada a situação fica mais crítica. Muitos mais entram até que chegue ao ponto final.

    Ao descer uma mistura de alívio, pelo espaço enfim conseguido, e o cansaço lhe tomam o corpo, mas não há tempo para isso. Terá que andar um tanto para chegar até o restaurante.

    Somente a porta lateral está aberta. Vai até o banheiro para trocar sua roupa. Tudo deve ser rápido. De uniforme e botas de borracha vai até o cartão ponto e sente-se feliz por ter conseguido batê-lo no horário certo. Nem sempre isto é possível.

    Na cozinha encontra alguns colegas cortando carnes, outros lavando verduras, as doceiras pegando ingredientes para preparar as sobremesas... O movimento é intenso.

    À medida que as horas avançam o calor começa a tomar conta de seu corpo e suas faces vão ficando cada vez mais rosadas. Rápido demais os fregueses começam a chegar e os pedidos são muitos. A correria fica maior. É um entra e sai pelas portas, mas tudo acontece com tamanha precisão que não existe tempo para pensar.

    No meio da tarde todos os empregados sentam-se para almoçar. É a única hora que ela tem para trocar algumas palavras com seus colegas.

    O calor de seu corpo só é aliviado depois de deixar tudo limpo para o dia seguinte e então pode tomar um banho rápido antes de começar o caminho de volta para casa. O horário de verão faz com que consiga chegar em sua casa com o dia ainda claro. Lava as roupas, arruma tudo e prepara algo para a família comer.

    Olha os cadernos das filhas, apenas olha porque aqueles rabiscos não fazem sentido. Ela mal sabe assinar seu nome. Mesmo assim sente-se orgulhosa desse gesto. Seu marido chega noite adentro e ela fica ansiosa por esse encontro. Com as filhas dormindo na cama ao lado da sua, aninha-se nos braços de seu amado e sente um dos poucos prazeres que pode: sente-se mulher, livre, feliz, despida de tarefas a cumprir e com espaço para continuar tendo forças para sonhar.

     Naquele instante Vitória Régia sente-se como a flor que lhe deu origem ao nome: aberta e perfumada.